quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Autismo nível 1 também é deficiência — e o BPC é um direito que precisa ser mantido

 



Em tempos de cortes e revisões de benefícios sociais, uma pergunta tem surgido com frequência: crianças autistas de nível 1 realmente precisam do BPC? A resposta é clara, direta e urgente: sim, precisam — e têm direito.

O Benefício de Prestação Continuada (BPC) não é um privilégio. É uma ferramenta de justiça social que garante a sobrevivência e o desenvolvimento de pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade. E o autismo, mesmo no nível de suporte 1, impõe barreiras reais à vida cotidiana.
 O que é o nível de suporte 1?

O nível 1 do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é caracterizado por dificuldades leves, mas persistentes, na comunicação social, na flexibilidade de comportamento e na adaptação à rotina. Essas crianças podem parecer “funcionais” aos olhos de quem vê de fora, mas enfrentam desafios profundos e silenciosos — como crises sensoriais, isolamento social, ansiedade extrema e dificuldade de compreender regras sociais.

Essas dificuldades exigem intervenções terapêuticas constantes, como psicoterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e acompanhamento pedagógico. E tudo isso custa caro.

O que dizem os dados?

Segundo o Censo Demográfico de 2022, o Brasil tem 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo, o que representa 1,2% da população. A maior prevalência está entre crianças de 5 a 9 anos, com 2,6% diagnosticadas com TEA. Isso equivale a mais de 1,1 milhão de crianças entre 0 e 14 anos com autismo no país.

Esses números revelam que o autismo é uma realidade crescente — e que o suporte financeiro é essencial para garantir o desenvolvimento dessas crianças.

 O BPC como ponte para a inclusão

O BPC é muitas vezes a única fonte de renda que permite que famílias ofereçam o suporte necessário para seus filhos autistas. Sem esse benefício, muitas crianças ficam sem tratamento, sem acompanhamento e, pior, sem perspectiva de inclusão.

A nova legislação (Lei nº 15.077/2024) tentou excluir pessoas com deficiências consideradas leves do rol de beneficiários, mas a mobilização da comunidade autista conseguiu barrar essa exclusão no Congresso Nacional. Isso mostra que o reconhecimento do autismo como deficiência — inclusive no nível 1 — é respaldado pela lei e pela sociedade.

Além disso, decisões judiciais têm flexibilizado o critério de renda, reconhecendo que os altos custos com terapias e medicamentos ultrapassam a renda formal das famílias.

 Não podemos retroceder

Cortar o BPC dessas crianças é um retrocesso social. É negar a elas o direito de crescer, aprender e se desenvolver com o apoio que precisam. É punir famílias que já enfrentam uma rotina exaustiva, emocionalmente desgastante e financeiramente difícil.

Manter o BPC para crianças autistas de nível 1 é reconhecer que inclusão exige investimento — e que toda criança tem o direito de ser cuidada, respeitada e acolhida.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quando a inclusão vira prioridade real: uma experiência que merece reconhecimento

A educação inclusiva tem sido um dos maiores desafios da escola pública brasileira. Garantir que alunos com deficiência tenham acesso, perm...